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TV 100% VIDA 82 – O Tapa, a Túnica e a Milha

17/09/2018

“Pois eu lhes digo que se a justiça de vocês não for muito superior à dos fariseus e mestres da lei, de modo nenhum entrarão no Reino dos céus!” Mateus 5:20

TV 100% Vida 81 – O Fruto da Figueira

11/09/2018

Como corresponder às expectativas de Deus para nós…

TV 100% VIDA 80 – Deus está no controle de tudo

16/03/2018

Ele controla (intervém com poder e autoridade) o mundo espiritual, o universo material, a história e sua vida.

TV 100% VIDA 79 – Jaboque, o lugar da submissão completa

14/03/2018

Luta, esvaziamento e transbordamento. Jaboque é o lugar onde o povo de Deus descobre  o poder contra o pecado que nos assedia.

TV 100% VIDA 78 – Deus nos Ama Incondicionalmente

19/09/2017

Deus é Amor!

REPÓRTER ISRAEL 32 – Os Judeus e o Descobrimento do Brasil

21/08/2017

Para compreendermos a situação, o caráter do judaísmo brasileiro e sua diversidade, devemos nos reportar ao seu passado mais longínquo, uma vez que os judeus estiveram presentes no território efetivamente desde sua descoberta.

judeus-descobrimento-brasil

O papel exercido pelos judeus na expansão e nas descobertas marítimas de Portugal é bastante conhecido, sendo que uma múltipla bibliografia encontra-se à disposição dos interessados no tema. A grande mudança deu-se no tempo de D. Henrique, cognominado o Navegador, quando este monarca, interessado pelas ciências cosmográficas, resolveu reunir em Sagres peritos e sábios que associassem seus conhecimentos à arte da navegação. Entre eles, destacava-se um mestre, Jacome, maiorquino, conhecido como “el judio de las brujulas” e sobre o qual pouco sabemos. O desenvolvimento do astrolábio, o aperfeiçoamento da bússola, das cartas marítimas e dos instrumentos náuticos foi um primeiro passo, ao qual se seguiu a criação da Junta dos Matemáticos, no tempo de D. João II, que incluía os nomes de José Vizinho e mestre Rodrigo, ambos físicos da Real Câmara, o alemão Martim Behaim e o cartógrafo Moisés. Vários destes sábios eram judeus, que se empenharam em descobrir um novo cálculo para as latitudes, pois os navegantes que naquela época se guiavam pela estrela Polar, somente podiam fazê-lo até a linha do Equador, pois após transposta esta última, a estrela perdia-se de vista e mergulhava no horizonte. Ao simplificar o astrolábio planisférico, eles produziram o astrolábio náutico e logo mais teriam as tabelas do Almanach Perpetuum que possibilitavam o cálculo das latitudes pela declinação solar, que por sua vez permitia uma orientação também para os navegantes que se dirigiam ao hemisfério sul.

O aperfeiçoamento dos instrumentos náuticos e o preparo de navegantes como Bartolomeu Dias, Duarte Pacheco e outros capitães, que integravam a frota de Pedro Alvares Cabral, permitiu a descoberta deliberada e não fortuita, de acordo com os historiadores, da terra brasileira. O fato dos judeus desempenharem um papel ativo na ciência náutica ibérica, como cartógrafos, astrônomos, ou então intérpretes, conselheiros e financistas no período no qual efetivamente se dá a formação do império português, ou seja, no século XV, permite compreender também a sua presença, agora como cristãos-novos, no Brasil. O decreto de expulsão e a conversão forçada de 1496-7 dispersaram os judeus de Portugal, levando-os para além da península ibérica, a outros reinos, acompanhando o movimento de colonização e intercâmbio marítimo que se deu com a descoberta das novas rotas para a Ásia e a instalação de entrepostos na África.

A instalação oficial do Santo Ofício em Portugal, em 1536, estimulou a saída dos conversos e seus familiares para outros lugares, mais seguros, longe dos olhos da Inquisição, como o recém-descoberto Brasil. A necessidade urgente do elemento colonizador favorecia certa tolerância para com aqueles que pretendiam continuar na fé judaica, conquanto esta não fosse manifestamente visível. O primeiro cristão-novo veio com a frota do descobrimento, em 1500. Era o notável intérprete Gaspar da Gama, que recebera o batismo daquele que lhe dera o nome, Vasco da Gama, o famoso navegador das Índias.

Desse modo, podemos dizer que judeus, ou melhor, cristão-novos, e entre eles judaizantes, encontram-se entre as primeiras levas de colonizadores no Brasil. Logo após a descoberta, o comércio é arrendado a um grupo de mercadores interessados no pau-brasil, utilizado na tinturaria, e outros produtos da terra. Este grupo, liderado por Fernando de Noronha, ou Loronha, tende a ser indicado pelos historiadores como composto em parte por cristãos-novos, sem que se possa ter provas maiores de tal origem, a não ser por documentos, como a carta de Piero Rondinelli, escrita em Sevilha em 3 de outubro de 1502, e a Relação de Lunardo da Chá Masser, de 1506, no qual o autor transcreve o nome “Firnando dalla Rogna, cristian novo”.

A divisão do Brasil em capitanias hereditárias, doadas aos ilustres fidalgos e capitães portugueses, permitiu uma colonização mais sistemática da terra que recebia, entre outros, também os cristãos-novos. Estes últimos passaram a ser um elemento importante na economia açucareira introduzida no território brasileiro na região do nordeste do país, provavelmente pelas ilhas de S. Tomé ou da Madeira.

A introdução da Inquisição em Portugal em 1536 provocou a saída dos cristãos-novos daquele reino também em direção ao Brasil, geograficamente muito distante e, junto a degredados comuns, eles passam a ser exilados no imenso território que demandava gente para assegurar ao império colonial português, então em formação, a posse da colônia. Em vista da necessidade de povoamento do Brasil como uma política obrigatória para garantir o domínio do reino português em sua colônia, há boas razões para crer que o Santo Ofício teria que fazer vista grossa ao que aqui se passava, o que também explica o fato da Visitação inquisitorial ter chegado somente mais tarde em território brasileiro.

O rigor persecutório da Inquisição tornou-se maior devido à unificação de Portugal e Espanha em 1580, sendo que onze anos após, a aparente frouxidão que caracterizava a vida religiosa no Brasil modificou-se inteiramente. Em 26 de março de 1591 era nomeado o licenciado Heitor Furtado de Mendonça como visitador de São Tomé, Cabo Verde, Brasil, incluindo as capitanias da Bahia, Pernambuco, Itamaracá e Parahiba, e a administração de S. Vicente e do Rio de Janeiro. Pouco após chegar à Bahia, em junho de 1591, começou sua atividade inquisitorial publicando uma carta Monitória e um Têrmo de Graça, no qual davam-se trinta dias para a população fazer confissões e denunciar outras pessoas. Exigia, especialmente, a delatação de hábitos sexuais condenados pela Igreja, exercício de bruxaria, ofensas à instituição eclesiástica, bem como o culto de outras religiões, ou seja, a luterana ou a judaica, visando assim aos judaizantes cristãos-novos que já deveriam ser objeto de queixas das autoridades pela prática do judaísmo em segredo bem antes da Visitação.

Quais eram essas práticas? Pelo conteúdo da Carta Monitória redigida em 1536 por Dom Diogo da Silva, por ocasião da instalação da Inquisição em Portugal, sabemos que se referia a:

1) observância do sábado, que se revelava pelo descanso, o uso de roupa limpa ou festiva ou de joias, limpeza da casa na véspera, preparo da comida para o dia seguinte, acendimento de velas novas na sexta-feira, deixando-as queimar até o fim da noite, e a realização de qualquer rito referente ao dia de Sábado;

2) matança de aves e animais de acordo com o ritual judaico, ou seja, testar e experimentar o fio da faca na unha, incisão no pescoço dos animais, sangramento e cobertura do sangue com terra;

3) não comer carne de certos animais e peixes, toucinho, lebres, coelhos, aves doentes, enguias, polípodes, congros, raias, qualquer peixe sem escamas e outros alimentos proibidos aos judeus;

4) observância dos dias de jejum judaicos, incluindo o mais importante no mês de setembro, no qual a abstenção é total até que as estrelas surjam no céu, andar sempre descalço nesse dia, observar o jejum da rainha Esther, bem como jejuar o dia inteiro todas as segundas e quintas-feiras;

5) celebrar os dias de festa judaicos, ou seja, a do pão ázimo, dos tabernáculos e do shofar, ingestão de pão ázimo e o uso de panelas e tigelas novas na Páscoa;

6) recitar preces judaicas, voltar-se para a parede durante a recitação das preces, baixar e levantar a cabeça durante a prece, de acordo com a tradição judaica, o uso dos filactérios;

7) recitar os salmos de penitência omitindo o Gloria Patri, et Filio, et Spiritu Sancto;

8) tratar e sepultar cadáveres guardando luto segundo o costume judaico, comer em mesas baixas durante o luto, banhar e vestir defuntos com roupa de linho, vestindo-os com camisolas e cobrindo-os com mortalhas dobradas à guisa de capas, enterrar o falecido em solo virgem e em sepultura bem funda, cantar a litania de acordo com a tradição judaica como parte do ritual de luto, colocar uma pérola ou uma moeda de prata ou ouro na boca do defunto destinados ao pagamento de sua primeira pousada, cortar as unhas do defunto, esvaziar moringas, potes de barro e demais vasilhas de água, após a morte de uma pessoa como expressão da crença de que a alma do defunto viria ali se banhar, ou que o anjo da morte ali estivesse lavando a espada com que a golpeara;

9) colocar ferro, pão ou vinho em jarros ou cântaros na véspera de S.João e na noite de Natal, simbolizando a crença de que, nessas ocasiões, a água se transformava em vinho;

10) dar a bênção às crianças de acordo com a tradição judaica, impondo as mãos sobre suas cabeças, passando-as sobre suas faces sem entretanto, fazer o sinal da cruz;

11) circuncidar os meninos e atribuir-lhes, em segredo, nomes judaicos;

12) raspar o óleo e o crisma após o batismo das crianças.

Além dessas referências, a Carta Monitória exigia que fosse denunciada qualquer pessoa, judeu ou mouro, que tentasse converter cristãos velhos ou novos ao islamismo ou judaísmo, assim como aqueles que possuíam bíblias em vernáculo, as quais deveriam ser entregues ao visitador para exame.

Professor Nachman Falbel, em um excerto do cap. 26 do vol. 2 da obra Uma história do povo Judeu, que trata de aspectos do Judaísmo no Brasil.

TV 100% VIDA 77 – As 4 Extremidades da Cruz de Cristo

21/08/2017

Deus nos ama…

REPÓRTER ISRAEL 31 – Tempo Futuro

24/07/2017

prologo-tempo-futuro

“Ontem”, dizia o político lendário, “estávamos à beira do abismo, mas hoje demos um gigantesco passo à frente.”

A história judaica às vezes dá a impressão de ser exatamente isto: perigo, seguido por desgraça. Poderia ser vista assim na atualidade.

Sessenta anos após o seu nascimento, o Estado de Israel está profundamente isolado. Enfrenta mísseis do Hezbollah ao norte e do Hamas ao sul, dois grupos terroristas empenhados em destruí-lo. Realizou duas campanhas, a do Líbano em 2006 e a de Gaza em 2008-2009, com resultados inconclusivos. O Irã, com a ameaça de armas nucleares, está pronto para entrar em cena. Raramente seu futuro pareceu tão arriscado.

Ao mesmo tempo, Israel vê-se diante de um coro de reprovações internacionais à sua tentativa de combater o novo terrorismo que, cruelmente, refugia-se no meio de populações civis. Se nada faz, Israel deixa de cumprir o primeiro dever de um Estado, que é proteger seus cidadãos. Se faz alguma coisa, os inocentes sofrem. É um enigma capaz de causar perplexidade à mente mais criativa e atormentar a consciência mais escrupulosa.

Theodor Herzl pensava que a existência do Estado de Israel daria fim ao antissemitismo. Contudo, Israel tornou-se o foco de um novo antissemitismo. O surgimento de uma nova forma do ódio mais antigo do mundo, quando o Holocausto é uma lembrança vívida, constitui um dos fenômenos mais chocantes da minha vida.

Já seria terrível se fossem esses os únicos problemas do povo judeu. Porém, existem outros, que o enfraquecem de dentro. Há a crise da continuidade judaica. Em toda a Diáspora, em média, um em cada dois jovens judeus escolhe, por meio do casamento misto, da assimilação ou do desligamento, não continuar a história judaica; ser a última folha de uma árvore que durou quatro mil anos.

Há o eclipse do sionismo religioso em Israel e da ortodoxia moderna na Diáspora, as duas modalidades de judaísmo que acreditavam na possibilidade de manter as condições clássicas da vida judaica no mundo moderno. Os judeus ou estão se envolvendo no mundo e perdendo a identidade judaica, ou preservando sua identidade e afastando-se do mundo. Há divisões incessantes dentro do universo judaico, a ponto de ser difícil falar dos judeus como um povo com destino comum e identidade coletiva.

Este livro versa sobre todos esses temas, mas é também uma tentativa de ir além deles. Pois algo mais profundo está em jogo, uma questão fundamental e não resolvida, que diz respeito ao lugar dos judeus, do judaísmo e de Israel no mundo. “Uma imagem nos aprisionava”, disse Wittgenstein, falando da filosofia. O mesmo, creio eu, aplica-se aos judeus. A imagem de um povo sozinho no mundo, cercado de inimigos, privado de amigos, domina a consciência judaica desde o Holocausto. Isso é compreensível. É também perigoso. Leva a más decisões e corre o risco de tornar-se uma profecia que se autorrealiza.

Os judeus precisam recuperar a fé – não a fé simples, o otimismo ingênuo, mas a crença de que não estão sós no mundo. O ex-dissidente soviético Natan Sharansky, encarcerado porque desejava emigrar para Israel, conta que sua esposa, Avital, deu-lhe o livro dos Salmos em hebraico, para fortalecê-lo durante os anos duros que viriam. Os russos o confiscaram, e ele lutou por três anos para reavê-lo. Por fim, o livro lhe foi devolvido.

Sharansky sabia pouco hebraico, mas tratava o livro como um código a ser decifrado e finalmente conseguiu fazê-lo. Ele rememora o momento em que se revelou o significado do seguinte versículo do Salmo 23: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei nenhum mal, pois Tu estás comigo.” Foi uma epifania. Pareceu-lhe que alguém tivesse escrito essas palavras especialmente para ele, naquele lugar, naquela hora. Sharansky sobreviveu, obteve a liberdade e foi para Israel. Carrega o livro consigo até hoje.

Sharansky é um símbolo vivo dos judeus através dos tempos. Muitas vezes, eles perderam a liberdade, porém, enquanto sentiam que “não temerei nenhum mal, pois Tu estás comigo”, possuíam uma resiliência interior que os protegia do medo e do desespero. Não era uma fé ingênua, mas tinha um poder extraordinário. Os judeus mantiveram a fé viva. A fé manteve o povo judeu vivo. A fé derrota o medo.

O medo, por outro lado, gera um senso de vitimização. A vítima acha que está só. Todos estão contra ela. Ninguém a compreende. Ela tem duas opções: fechar-se dentro de si ou agir agressivamente para se defender. A vítima culpa o mundo, não a si própria. Desse modo, assume uma atitude que reforça a si mesma. A pessoa quer que o mundo mude, esquecendo-se de que talvez seja ela que deve mudar. Seus temores podem ser reais, mas a vitimização não é a melhor maneira de lidar com eles.

O medo é uma reação errada à situação dos judeus no mundo contemporâneo. Com a análise das notícias dia a dia, é fácil acreditar que os tempos são os piores possíveis; contudo, sob alguns aspectos, eles são os melhores. Nunca antes, em quatro mil anos de história, os judeus desfrutaram, simultaneamente, de independência e soberania em Israel e liberdade e igualdade na Diáspora.

A própria existência de Israel, nas páginas sóbrias da história empírica, é um evento quase milagroso. Israel tem de enfrentar guerras e terrorismo, porém transformou a situação judaica, pelo simples fato de existir como o único lugar onde os judeus podem defender-se sem terem de contar com a tão frequentemente inconfiável boa vontade alheia. Ao mesmo tempo, há um florescimento cultural, educacional e até espiritual da vida judaica na Diáspora que seria inimaginável um século atrás.

Na verdade, esta não é a pior das épocas, nem a melhor, mas a mais desafiadora. Hoje, os judeus estão numa posição em que raramente, se não jamais, estiveram antes, em quatro mil anos de história. Em Israel e na Diáspora, encaram o mundo como iguais ou, pelo menos, como judeus. O que isto significa?

Essa é a questão que trato neste livro. Meu argumento é que corremos o perigo de esquecer quem são os judeus, por que o povo judeu existe e qual é o seu lugar no projeto global da humanidade. No passado, os judeus sobreviveram a catástrofes que teriam significado o fim para a maioria das nações: a destruição do templo de Salomão, o exílio babilônico, a conquista romana, as perseguições do período de Adriano, os massacres das Cruzadas, a expulsão da Espanha. Eles escreviam elegias; enlutavam-se; rezavam. Porém, não davam lugar ao medo. Não se definiam como vítimas. Não viam o antissemitismo como algo inerente à estrutura do universo. Sabiam que a sua existência tinha um propósito, que não viviam apenas para si mesmos.

Os judeus, em Israel e outros lugares, precisam recuperar o sentido de propósito. Enquanto não se sabe onde se quer estar, não é possível saber aonde ir. Portanto, este livro não é só sobre os problemas que se apresentam aos judeus, ao judaísmo e a Israel no século 21. É também sobre uma questão mais ampla: quem são os judeus e por quê?

Estou profundamente envolvido com todos os problemas sobre os quais escrevo: a luta contra o antissemitismo, o fortalecimento da continuidade judaica e, no contexto da Diáspora, a defesa de Israel na mídia, no meio acadêmico, nas organizações não governamentais (ONGs) e na política britânica e europeia. Meu papel é pequeno, sou uma voz entre muitas, e tem sido um privilégio trabalhar com pessoas e instituições, judaicas e não judaicas, que fazem muito mais.

Contudo, senti uma ausência nesses esforços. Não é culpa de ninguém. É o preço que se paga pela urgência e envolvimento. Notei que estava faltando o quadro maior, a perspectiva histórica, ligar os pontos para formar uma figura que nos mostre o quem, o quê e o porquê da situação judaica contra o vasto pano de fundo da paisagem humana e histórica. Há um versículo da Bíblia citado com mais frequência por não judeus do que por judeus: “Sem visão, o povo perece” (Provérbios 29:18). No entanto, são os judeus que deveriam ouvi-lo. Eles eram um povo de visão, cujos heróis eram visionários. Isso jamais deve ser perdido.

No calor do momento, as pessoas fazem o que fizeram da última vez. Voltam a ser o que eram antes. Escolhem o modo-padrão. Na presente circunstância, essa reação é errada. As coisas mudam. O mundo, no século 21, não é o que era no século 20 ou 19. Fronteiras que, há poucas décadas, pareciam garantir a segurança de Israel não oferecem defesa contra mísseis de longo alcance. O nacionalismo secular do tipo que dominou o Oriente Médio depois da Segunda Guerra Mundial não é igual ao terrorismo de motivação religiosa, e não se pode lidar com eles da mesma maneira.

O velho antissemitismo, produto do nacionalismo romântico europeu do século 19, não é igual ao novo, por mais antigos que sejam os mitos reciclados. Não se pode combater o ódio transmitido pela internet do mesmo modo que se combatia o ódio pertencente à cultura pública. Caso se fale aos britânicos do aumento do antissemitismo, eles, em sua maioria, olharão com uma expressão de absoluta incompreensão. Não leem sobre isso nos jornais; nem o veem na televisão. Como haveriam de saber que seu vizinho de porta talvez o esteja inalando de um site de cuja existência eles não têm conhecimento?

Sob pressão, as pessoas fazem o previsível. Moisés agiu assim uma vez, e isso lhe custou a entrada na Terra Prometida. O povo queria água. Deus disse a Moisés que tomasse uma vara, falasse à rocha e a água apareceria. Moisés tomou a vara, bateu na rocha e a água fluiu. Então Deus disse, com razão: “Não fizeste o que te ordenei. Não entrarás na terra.”

Essa história causa perplexidade a quase todos que a leem. Castigo tão grande por um pecado tão pequeno? Além do mais, qual foi o pecado mesmo? Nós nos esquecemos de que um episódio quase idêntico aconteceu antes, pouco depois que os israelitas atravessaram o Mar Vermelho. Naquela ocasião, Deus disse a Moisés que tomasse uma vara e batesse na rocha, e ele obedeceu. No segundo caso, Moisés seguiu o precedente. Fez o que tinha feito anteriormente. Podemos imaginar seu raciocínio: “Deus disse: ‘Toma uma vara.’ Da última vez, isso significava: ‘Bate na rocha.’ Logo, desta vez também baterei na rocha.”

Havia uma diferença evidente: algo como quarenta anos. Da primeira vez, Moisés guiava pessoas recém-saídas da escravidão. Agora conduzia seus filhos, nascidos em liberdade. Escravos entendem que uma ordem é acompanhada de uma vara. Homens e mulheres livres não respondem a varas, mas a palavras. Necessitam de líderes que falem, não que batam. Moisés, que por quarenta anos guiou uma geração saída da escravidão, não era a pessoa certa para conduzir um povo livre na travessia do Jordão.

Reações corretas numa época podem ser erradas na seguinte. Isso se aplica aos judeus e ao judaísmo de hoje. Preocupa-me a previsibilidade das reações judaicas, como se o passado ainda lançasse sua sombra sobre o presente. Atualmente, os judeus não são vítimas, não são impotentes e não estão sozinhos. Pensar desse modo é contraproducente e disfuncional. O antissemitismo não é inevitável e nem sequer misterioso. Tampouco há uma lei da natureza que determine que os judeus devam brigar entre si, frustrar os esforços uns dos outros e criticar-se mutuamente de forma impiedosa, como se ainda estivessem no deserto perguntando-se por que deixaram o Egito.

O mundo mudou, e os judeus devem mudar, como sempre mudaram, voltando aos princípios fundamentais e indagando sobre o caráter da vocação judaica, “renovando os nossos dias” – conforme o adorável paradoxo judaico – “como foram outrora”.

Relutei em escrever este livro. Tanto se publicou nos últimos anos: sobre Israel, o novo antissemitismo, a continuidade judaica e tópicos semelhantes. Não pretendo, levianamente, ser apenas mais um. Procurei delinear o quadro amplo, a visão mais abrangente, esperando apresentá-la a uma nova geração, não só de leitores, mas de líderes. Tentei fazer as perguntas importantes – quem são os judeus e o que se pede deles neste momento – e, independentemente de serem as minhas respostas persuasivas ou não, as questões são reais e não desaparecerão.

Creio que os horizontes temporais no mundo judaico – na verdade, no Ocidente em geral – são reduzidos demais. Pensamos no ontem, hoje e amanhã, enquanto os inimigos dos judeus e da liberdade pensam em décadas e séculos, como afirma Bernard Lewis frequentemente. Numa batalha entre os que pensam no futuro próximo e os que pensam no futuro distante, os últimos vencem no longo prazo, quase por definição. Táticas não substituem estratégia; as manchetes de amanhã não são o veredito da história. Os judeus estiveram presentes durante dois terços da história da civilização. É tempo suficiente para saber que a vida judaica necessita de algo mais profético do que o gerenciamento de crises.

Portanto, tentarei nos próximos capítulos colocar o presente no contexto mais amplo do passado e futuro e relacionar os problemas imediatos a ideais supremos. Meu argumento será que perdemos o rumo e precisamos recuperar os parâmetros clássicos da história judaica, que não é sobre antissemitismo nem sobre Israel como uma nação cercada de inimigos. Tampouco é sobre judeus fadados a viver sós, na melhor das hipóteses mal compreendidos e, na pior, alvo eterno de ódio. É uma história de fé, uma fé incomum, em que Deus chama um povo e incumbe-o de ser Seu parceiro na criação de vidas – e, em Israel, de uma sociedade – que venham a ser morada para a Presença Divina. Essa fé inspirou não só judeus, mas também cristãos e muçulmanos, cujas respectivas religiões brotaram em solo judaico, bem como outros, que admiraram nos judeus o amor à família, comunidade, educação e tradição, a busca de justiça, a paixão pela discussão e o senso de humor, capaz de rir mesmo em face da tragédia.

Creio que isso não é acidental. O judaísmo nunca se destinou apenas aos judeus. Contém uma mensagem para toda a humanidade, e muita coisa no século 21 decorrerá da prevalência dessa mensagem ou de outra. O judaísmo é parte da conversa humana, e devemos esforçar-nos para compartilhar nossas ideias com os demais, deixando também que compartilhem as deles conosco. Por muito tempo – na maioria das épocas – isso simplesmente não foi possível. O mundo não estava interessado no que os judeus tinham para dizer. Eles existiam para serem convertidos ou assimilados, ou então eram “os outros”, constantemente insultados. Isso mudou, por duas razões.

Primeiramente, as democracias liberais abrem espaço para uma multiplicidade de vozes. Todos têm o direito de falar em nome próprio. Essa é a glória da democracia liberal. Em segundo lugar, graças à existência do Estado de Israel, os judeus podem falar em condição de igualdade. Não precisam mais ser assombrados pelo trauma da falta de pátria.
Essas mudanças não são insignificantes. Em consequência delas, os judeus devem voltar ao princípio e à Bíblia Hebraica, perguntando novamente o que é ser judeu, membro de um povo singular num mundo plural, simultaneamente consciente da particularidade da identidade e da universalidade da condição humana. Como ser ao mesmo tempo fiel à sua própria crença e uma bênção para os outros, independentemente da crença deles? Eis a questão judaica.

Os problemas enfrentados pelos judeus no século 21 são imensos, porém outros também os enfrentam. O terrorismo é uma ameaça não só para Israel, mas para toda sociedade livre após o 11 de Setembro. Os judeus sofrem ódio e preconceito. O mesmo ocorre aos muçulmanos, hindus e sikhs na Grã-Bretanha, aos cristãos na Nigéria, aos budistas no Tibete e aos chineses nas Filipinas. Os judeus inquietam-se com o futuro, perguntando-se se seus filhos e netos levarão adiante as suas tradições. Toda minoria religiosa nas democracias diversificadas do Ocidente tem essa preocupação. Como escrevi livros sobre a continuidade judaica, já fui consultado por muçulmanos britânicos a respeito da continuidade islâmica e por chineses de Hong Kong sobre a preservação do confucionismo e do taoísmo.

Foi preciso que um autor não judeu, o historiador católico Paul Johnson, afirmasse o óbvio em sua magistral História dos Judeus. Ele escreve que os judeus eram “modelo e personificação da condição humana”, como se apresentassem “todos os dilemas inescapáveis do homem de forma intensificada e nítida”. E conclui: “Parece ser o papel dos judeus concentrar e dramatizar essas experiências comuns da humanidade, transformando seu destino particular em moral universal.”1 Nossa singularidade é nossa universalidade.

Os judeus não estão sozinhos diante dos desafios. O mundo está passando por um turbilhão de mudanças, de ritmo raramente visto antes. Nos meses em que eu escrevia este livro, do verão de 2008 ao início de 2009, a estrutura financeira global ruiu. Uma economia após a outra entrou em recessão. Houve um ataque terrorista trágico em Mumbai. Israel realizou uma campanha controvertida em Gaza. Os ataques antissemitas na Grã-Bretanha atingiram seu nível mais alto desde que se começou a registrá-los, há vinte e cinco anos. Os acontecimentos locais nunca tiveram repercussão tão rápida em toda parte. Na frase ilustrativa de Matthew Arnold, estamos “vagando entre dois mundos, um morto, o outro sem força para nascer”.

Neste momento histórico, talvez mais do que em qualquer outro do passado judaico, as palavras de Deus a Abrahão, chamando-o a uma vida por meio da qual “todas as famílias da terra serão abençoadas”, ressoam com mais intensidade. Os judeus são o mais antigo povo global do mundo – até recentemente, o único. O povo que reconstruiu sua vida após o Holocausto, o maior crime do ser humano contra o ser humano. Israel, sob ataque quase constante há sessenta anos, mantém uma sociedade livre e democrática numa parte do mundo que jamais conheceu tais coisas. Chegou a hora de os judeus se livrarem de seus temores e se reapossarem de suas forças históricas.
Essas propostas são controvertidas, mas não as apresento levianamente, como especulações acadêmicas que não passaram pelo crivo da experiência. Ao contrário, são conclusões às quais fui conduzido em resultado do meu envolvimento pessoal com todas as questões de que trato. Apliquei-as em campo, e elas funcionam. Examinei-as à luz de nossos textos sagrados, e elas mostraram-se coerentes.

Após extensa reflexão, considero que, neste século tenso e conturbado, os judeus devem assumir uma posição positiva, não motivada pelo medo, não guiada pela paranoia ou senso de vitimização, mas fundamentada nos valores pelos quais nossos antepassados viveram e estavam dispostos a morrer: justiça, equidade, compaixão, amor ao estrangeiro, santidade da vida e dignidade do ser humano, independentemente de cor, cultura ou credo. Não é hora de retirar-se num gueto da mente. Este é o momento para renovar a mais antiga das instituições bíblicas, a aliança de solidariedade humana, feita nos dias de Noé, após o Dilúvio. Sem abrir mão de nenhum pormenor da fé ou da identidade judaica, os judeus devem posicionar-se ao lado de seus amigos – cristãos, muçulmanos, budistas, hindus, sikhs e humanistas seculares – em defesa da liberdade, contra os inimigos da liberdade, afirmando a vida, contra os que idolatram a morte e desrespeitam a santidade da vida.

Alan Greenspan disse que estamos entrando numa era de turbulência. O antídoto para o medo é a fé, uma fé que conhece os perigos, porém nunca perde a esperança. Entendo a fé não como certeza, e sim como coragem de viver com a incerteza, a coragem que Natan Sharansky descobriu em sua cela na prisão, que levou os judeus a reconstruir sua vida e sua pátria ancestral depois do Holocausto, que fez geração após geração transmitir o modo de vida judaico aos filhos, sabendo dos riscos inerentes, mas sempre apreciando o privilégio do desafio. O povo judeu é antigo, porém ainda jovem; um povo sofredor ainda cheio de energia moral; conheceu as piores aflições do destino e, no entanto, continua capaz de alegrar-se, mantendo-se como símbolo vivo da esperança.

Escrito por Editora e Livraria Sêfer

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